quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

morte.

Temos tanto medo dela, com ela lidamos tão mal. Numa Era de sobrepopulação do mundo, de indivíduos submersos num “Outro” massivo, e crescente receio do escuro (aquele eterno desconhecido, que tantas ficções gera), este “sem nome” decide dar o exemplo, homenageando a eutanásia.
Marca-se, hoje, um ano desde o nascimento deste exercício (diga-se: na continuação do repúdio calendarista anteriormente afirmado), um bastardo nunca substancializado propriamente, despropositado em tantas outras coisas. Serviu de aeróbia e anaeróbica reflexão, musculação de força e alongamento de flexibilidade, estado de espírito e concentração, táctica e concretização. Cresceu e fez crescer, partilhando alegrias.
Agora, no culminar da sua maturação, vai deixar o escuro do fundo destas páginas desfocar as pálidas palavras, na potência do esquecimento… e vai amar, como tantas outras coisas amou, a morte, símbolo sem sentido do descanso da dor de sentir, da dor de pensar, da dor de fazer – da inexistência… do suicídio.
Outra morte, a do texto, vai-lhe deixar um corpo eternalizado, em sátira a si mesmo.
Resta, como sobra de riso e lágrima, a possibilidade inegável que as próprias palavras, letras, esta candura da brancura, reflictam sobre si mesmas, até ao fim dos tempos, já que não terão divindade criadora… não mais. Que bonita hierarquização, numa metonímica metaforização da natureza das pessoas e das coisas. Seca-se a garganta, em medo e saudosismo. Melhor que, por aqui, se fique.
E, assim, se concretizou a proposição, em mais um lapso retórico. O último, finalmente…

sábado, 5 de dezembro de 2009

declaração de dependência.

Encontraram-se por entre o caos deste mundo. Ele e Ela. Dois. Ele e Ela. Um vinha do Norte, outra do Sul. E bastou olharem-se, trocarem palavras, para se saberem um ao outro.
Passeavam, todos os serões, pelos jardins botânicos. Curioso, porque o nome dela rimava com o de todas as flores. O dele, ela dizia tão baixinho… tão ligeiro e caloroso.
As suas conversas tinham sempre início, mas nunca fim. Falavam de passados, e do caos do Mundo. Aprendiam, um com o outro, como desculpa para se aprenderem. Desculpa tão descabida, quanto justo o dar-de-mãos. Ele sonhava com futuros. Pensava mudar o Mundo, o seu. O de Ela. Ela fazia algo de semelhante. Diziam, em brincadeira as verdades, e diziam com certeza as contingências. Mas nunca se diziam inteiros.
Fosse o mundo de um o outro, Ela dele, Ele dela, sempre o sol luziria, de dia, até de noite. Mas o mundo é só do Mundo. E esse é vasto e complicado. Esse é egoísta. É cheio de pessoas, e essas cheias de ideias, soprando nas ondas para tentar concorrer com a lua, perdendo, vez após vez, por cada um apontar para um lado diferente.
Viviam num país conturbado. Num daqueles onde os trópicos garantem sol e chuva todo o ano. Alentos e vontades sem fim…
E por isso, entre conservadores e revolucionários, reaccionistas e anarquistas, entre activos e desinteressados, entre livros de leis e revólveres, fez-se a guerra, adiando por mais umas gerações o sonho da paz perpétua. Despoletou o conflito, como sempre acontece entre Homens. E a terra gritava pelo sangue dos seus, por se sentir salgada demais.
Por justo que o aperto-de-mãos fosse, multidões enraivecidas agarravam, com garra, absorviam as suas juventudes, e aquelas duas, belas e apaixonadas, foram puxadas por vácuos opostos, por um troçar cardinal, de povos que se insultavam com a palavra da morte.
O medo encheu-os. A separação de algo que tinham nem começado era inconsolavelmente ríspida. A sua vontade mútua inabalável.
Ambos serviram os seus países, a isso obrigados. Ambos foram capacitados de responsabilidade organizacionais. Gestão de informações. Comunicações à distância. Mas toda a pressão da guerra, todo o sofrimento civilizacional não chegava perto de ser suficiente para os fazer sequer piscar enquanto olhavam o horizonte. Os meses passaram, e não se voltaram a falar. Nem se sabiam um ao outro bem. A única troca entre os povos era a de balas. Tantos entes queridos deixados à deriva, pala lá das linhas da frente, e um consenso de impedir que se vissem, que se tocassem. Tudo por um qualquer sentido de união que não coincidia. Fosse a razão palavra de ordem… mas nunca é. Pessoas são seres de carne, pulsações e pulsões. Tão imponderadas.
Tanto pensavam, um no outro, Ele n’Ela, Ela, n’Ele, que se descobriram, nalguma frequência improvável, nalgum canal estranho, num daqueles que envia o som, através do espaço, por uma magia qualquer. E choraram de alegria, por ouvirem a voz que pensavam para sempre ter perdido. Falaram meses mais, em medo permanente de serem descobertos, considerados traidores. Talvez mortos por isso. Mas não importava. Só uma coisa importava. Aqueles passeios longos, que todas as noites viam quando fechavam os olhos, ao som um do outro.
As guerras primam por ser duas coisas: pacientes e impacientes. São criaturas de apetites, não de hábito. Naqueles dias tinham um grave apetite. O Norte e o Sul tornaram-se abruptos, e atacaram-se como se não houvesse amanhã. Entre o terror, nada mais importava senão Ele e Ela. Mantiveram a conversa aberta, enquanto de um e de outro lado o som de bombas crescia, cada vez mais assustador. Pensavam dizer tudo quanto nunca tinham dito, soluçando com o tremor de cada impacto, progressivamente mais próximos.
As ordens foram dadas. Os povos, filhos da mesma mãe, decidiram que só um sobreviveria, como o fazem apenas os mais terríveis dos irmãos. De um e outro lado do rádio, soo um rugido feroz, de maquinal genocídio. Maior que qualquer outro. Tão grande, violento, que lhes tornou todo o corpo num arrepio. De um e outro lado cresceu a expectativa por ouvir uma palavra. Uma que fosse, qualquer que fosse, que assegurasse o bem-estar do mais querido dos entes. Ele teve o mais profundo dos temores de chamar o rádio, a convocar a sua resposta. E se não houvesse resposta? Que faria Ele, se perdesse a coisa que mais queria? Se Ela gritasse por uma confirmação de vida, e nada ouvisse senão eco? Ao mesmo tempo, ambos julgavam, em esquizofrénicas espirais, que o silêncio recíproco era agoiro infernal.
Os minutos passaram, enquanto as últimas bombas caiam dos céus. O amenizar dos impactos fazia prever a trégua forçada. Um dos lados teria decerto ganho. Não importava qual. Minutos? Não, foram anos de silêncio, anos de incomparável solidão. Mas pareceram décadas.
Nem uma lágrima, nem um suspiro foram soltos. O feedback seria incapacitante. A possibilidade de perder aquela pessoa… dor demasiada. Preferiam correr o risco não se terem, de não viverem aquilo que desejavam, a sabê-los perdidos no negro sem fim. E por isso nunca se souberam.
Os separatistas foram victoriosos. Cresceu uma gélida barreira entre os povos. Um outro tipo de guerra, no qual o barulho das espingardas em danças de azáfama foi substituído por uma arrepiante mudez. Durante muitos anos, não houve contactos entre as comunidades, separadas por uma serra de desprezo, que cresceu onde antes havia jardins botânicos.
Mesmo quando finalmente a serra cedeu em erupção, e as pessoas se reencontraram, Ele e Ela nunca se procuraram, senão no espelho, com um suspiro e um sorriso, todos os dias.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

periférico ao perigo.

Não chove, mas de cada vez que coloco a mão de fora da janela, ela regressa molhada. É como quem se embrulha num cobertor, e, de repente, dá por si no meio de um incêndio. Mas esses gostam de estar, simplesmente. Mais estáticos que um balão de ar friccionado, ou um ecrã de uma televisão antiga. Eu cá gosto de viver perigosamente.
Roo as unhas. Saco caricas de cerveja com os dentes. São multifuncionais. Mas também os trato bem. Certo dia olhava-me ao espelho, e abri boca e pestana, rendido à evidência de ter cada dente, daqueles, os da frente, muito serrados. Dentados, quero dizer, curiosamente, faço o pleonasmo. Então fui à caixa das ferramentas, e dedilhei procurando a apropriada. O serrote (pára de aparecer, sempre idêntica) pareceu-me excessivo. Também a grosa. Mas a lixa demasiado ligeira para a tarefa. Então, lá no fundo, descobri uma pequena lima, bem encardida, mas apta. Pensei lavá-la do óleo e serradura (não te consigo fugir), mas achei que não me mataria. Acertei a dentadura, pu-la mais certa que… bem, ficou certinha. Gosto de viver perigosamente.
Quando estaciono o carro, o meu renô alpine, azul com lista branca, à porta de casa ou em qualquer outro lugar com acentuado declive, gosto sempre de deixar a caixa engrenada no sentido da descida. E o travão-de-mão a meia alavanca. Dá-me um certo bem-estar. Gosto de viver perigosamente.
Sempre que vou a biblioteca, escolho dois livros. De um arranco uma folha aleatória. Do outro procuro uma página que contenha duas ou três palavras porcas, asneirentas ou pelo menos fortemente conotativas, e sublinho as que conseguir encontrar que, conjuntamente, formem um senso lexical e sintáctico eroticamente sugestivo. E escrevo o meu número de telefone. Vá, o da minha avó. Aliás, o meu único intuito em ir à biblioteca é fazer isso mesmo. Gosto de viver perigosamente.
Guardo os preservativos na caixa do kit de costura. Gosto de viver perigosamente.
Quando vejo uma miúda gira que não conheço, ao balcão, antes sequer de dizer olá, avanço para ela com duas bebidas na mão. Uma bebo de seguida. A outra, lanço para cima do namorado. Gosto de viver perigosamente.
Às vezes, quando estou bem-disposto, vou ao bairro dos traficantes de droga, procuro uma seringa no chão, e lanço-a ao ar, na vertical. Gosto de viver perigosamente.
Em vez de um croissant ao pequeno-almoço, gosto de jogar roleta russa. Sem balas. Não sou estúpido. Jogar com balas seria estúpido. Jogar sem elas, não. Gosto de viver perigosamente.

mágico-míssil pulsão.

Dizendo aquilo que não falo,
Professo tudo quanto calo,
Com estes meus lábios, atados,
Com laços... fios envenenados.

Sempre catraio, atraio trabalhos
Amores, que nem espantalhos,
Sussurrando no vento paixões,
Afugentam sem-fim corações.

Logo, o logro e o isco num só,
Se nos fazem coisa ingénua, ó!
Vencidos entre actos aquém,
E sentimentos muito além.

Adições de constrangimentos,
Subtraídas de escassos tempos,
Divididas sempre por dois...
Já só nos resta contar "pois".

Porém, tempestuosa é a emoção,
Impetuosa rainha-sensação:
Tudo comandas, numa guerra,
Que, como todas, em vão, ferra.

Os sabres que dançam em par!
Lanças de lágrimas, ao ar!
Trespassam carnes encarnadas,
Escarlates mártires, fadas,...

Entre o gume e o encantamento,
Afia-se um feitiço, um lamento,
P'ra com os outros ecoar,
Na fenda que hesita em fechar.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

tanto, demais.

Somos, uns de outros, memórias, e entramos na realidade pelo presente, pelo acumular dessas memórias. Tais memórias são investimentos, damo-nos por actos – gestos e palavras –, e por expectativas – sentimentos e promessas.
Somos, uns de outros, espelhos, concretizando a imitação, quebrando o vidro que nos dá corpo. Tais estilhaços são instrumento do masoquista sacrifício, o afiado corte, o derrame dos sangues, das energias.
Somos, uns de outros, sonhos, futuros desejados em sonos bons, em sonos maus. Tais comas temos! que silenciar, e tornar imaginário no feito, para que os tantos não se tornem demais, no escuro de espelhos que já não se lembram de como sonhar.

domingo, 22 de novembro de 2009

amanhã tábua rasa.

No meu peito persiste, além da insistência,
um vácuo insatisfazível, penitência,
que tudo suga e absorve em espiral,
e, no entanto, palpita, num tom mortal.

!DEMAIS: dele me livro, escrevendo em livro.
Cuspo na tinta a minha moralidade
tornada mortalidade de palavras
que lavro, indecente, críptico, nos montes
em livres socalcos, onde semeio o
inalienável transtorno desta minha
arritmia - tão contundente - partilhada.
Tapo com terra, e o peso deste Mundo.
E vêm os sois, vêm as chuvas, vem o Tempo.
Brota do solo (peito como colo), algo
informe, imprevisível, pétala amnésica
que informa, divisível, que é ela minha.

As vibrações desse proclamar são tudo
para tornar o rude palpitar mudo,
assoberbar a estrela-morta de luz
e tudo voltar àquilo que nunca supus.

sábado, 17 de outubro de 2009

interlocutores mentais.

Quando a dialéctica é ontologicamente estancada, resta-nos permutar entendimentos e reflexões com os reflexos daqueles que entendemos poderem ser nossos confessores. Confesso que o faço.
Quantas as tantas conversas que não chegamos a ter. Às vezes, não sabemos o que dizer. Outras sabemos bem de mais. Ocasiona-se a ausência do ouvido pretendido, ou a falta de momento para ele nos escutar. Por vezes, na garganta, forma-se um nó, como a timidez de um resfrio na tez. Inúmeras vezes, os pensamentos que queremos partilhar são epifanias dos momentos de solidão. É provavelmente mais isso.
De qualquer forma, é isto que acontece. E os temas que, tácitos, se calam, ecoam em ricochetes na nossa mente, encontrando ressonância nas pessoas com quem os queríamos partilhar. Nos nossos interlocutores mentais. Tenho alguns. Variam com os temas.
Com eles discuto, no fingimento de uma conversa, as coisas que só com eles partilharia. E muitas pessoas não imaginam o quão próximas são, ou as coisas que com elas já partilhei. Demoradas e recorrentes tertúlias já mantive ao longo de largos tempos. Já tanto aprendi com os outros, que nada mais podem ser que eu mesmo.
Autopsicagogias heterólogas. É isso que são.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

ao fim de um dia.

Quando a única coisa que a fechadura da porta de casa nos pede é um sorriso, e conseguimos entrar, é bom sinal.

domingo, 11 de outubro de 2009

palavras.

Por vezes, estranhamos as palavras.
Elas são-nos o meio, a conduta, o caminho mais comum, nos dias presentes. Na iminência e na distância. Têm mil formas, mil códigos, mil fins. Infinitas conjugações. Algumas mais interpretações, ainda. Alcançam-nos por todos os sentidos, como o tem que fazer a poesia. Usar palavras é, por si só, uma performatividade poética, uma demência ética, algo que nos é tão banal, e tão desmedidamente singular, especial.
E, às vezes, estranhamo-las. Ou por as encontrarmos fora de contexto. Ou por lhes darmos uma atenção inédita. Ou por as repetirmos consecutivamente, até parecerem pouco familiares.
E estranhamos-lhes o som, a escrita, o sentido.
E, às vezes, estranhamo-las. Ou por similitude a outras. Ou por nunca as termos encontrado. Ou por nunca termos deixado de as encontrar.
E estranhamos-lhes a forma com que saem dos nossos lábios, entram nos nossos ouvidos, ou ecoam nas nossas mentes.
E, às vezes, estranhamo-las. Ou por nos recordarem momentos e lugares. Ou por agoirarem passados no futuro. Ou por estarem perdidas nos labirintos simbólicos que para elas inventamos.
E estranhamos-lhes a forma como rasgam com tinta a folha branca (traço visto de longe), os peculiares movimentos que obrigam as nossas mãos a executar, a associação de particulares vogais e consoantes.
E, às vezes, por vezes, estranhamo-las. Ou por nos tocarem tão fundo. Ou por nada nos transmitirem. Ou por simplesmente nos apercebermos que são sem-sentido.
E estranhamos-lhes a aquilo que alguém as quis fazer significar, aquilo que acarretam para os outros, aquilo que nós lhes interpretamos.
E aquilo que elas fazem.

Hoje estranhei a palavra “palavra”.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

dias quentes e chuvosos.

Será isto essa coisa a que chamam o solitário frio? Um temperamento muito distinto da temperatura, e assim me lamento, descaber em postura… não sei se me devo encasacar, e manter distância, ou, nu, desfraldar para matar esta ânsia. Trago muito calor (e céu, como o seu semblante, é cinzento), mas não despisto este temor, que sobre mim caia o firmamento… chuva chuva chuva.
E tão difícil que é materializar o fino impermeável que me deixe ameno no corpo, e seco em espírito.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

frutada.

Há uma nêspera e uma ameixa, em árvores distintas, mas os ventos sussurram abanos nos seus ramos, e, acabamos, semeando campos em fintas, e, com esta deixa, aguarda a espera.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

entre a uva e a melância.

Às vezes achamos que uma peça de fruta é a sua própria dose apropriada, quando não o é.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

como apenas um amigo o faria.

Os melhores amigos são aqueles que fazemos na infância. Não aqueles que crescem e se tornam tão grandes como nós. Aqueles que permanecem, iguais.
Podem ser bonecas de trapos. Tecidos que ganham expressão e fazem connosco a lide dos dias. Podem ser heróis de histórias fantásticas. Sobrevivendo os mais impossíveis enredos, partilhando-os com nossos olhos e ouvidos. Podem ser pilotos de automóveis ou vocalistas de bandas rock. Aqueles que se eternalizam, de tão bons e irreverentes, e morrem jovens. Podem ser outras crianças com quem partilhámos parques infantis, escorregas e jogos inocentes. Aqueles que deixamos de ver ainda petizes, permanecendo em recordações imutáveis. Podem mesmo ser imaginários, e desses não há definição nem limite. Aqueles que, mesmo perdendo-se nas memórias ocupadas de sucessões de situações das vidas adultas, se imiscuem bem no fundo do nosso carácter.
Amigos que não decepcionam. Amigos que nos deixam a querer mais tempo com eles, não a querer melhor deles. Amigos tão mais verdadeiros, mas tão menos reais. Ou será o inverso?

sábado, 15 de agosto de 2009

nenhuma palavra.

Às vezes algo que não se escreve é mais significativo que qualquer combinação de palavras.

domingo, 2 de agosto de 2009

para fora.

Estranhamente, hoje vou dormir com um enorme apetite de dizer coisas a pessoas. Desespero por tanto conter. Quero dizer a todas as pessoas de quem gosto que assim as sinto. Quero proclamar a atracção que sinto por algumas mulheres. A admiração que nutro por grandes homens. Quero segredar as paixões da minha vida, que insisto em manter para mim, por medo da enunciação, na fé de achar mais bonitas as coisas tácitas. Tenho algum medo de viver o risco. Não é redundância. É receio de não encontrar reciprocidade, no risco. Quero beijar o amor, gritar a raiva e chorar a mágoa. Quero dizer todas estas coisas, e, no entanto, não o faço, pela dicotomia de saber que existe um amanhã, que prefiro manter igual ao hoje. Porque os riscos têm um lado perigoso. E esse marca fortemente, na memória de toda e qualquer acção. Sou o bardo que brada um fado na estrada. Para dentro.

sábado, 18 de julho de 2009

pergunto ao espelhinho o que ele mostra.

Fundos pretos frustram-me.

6.

Há meia-dúzia de palavras que quero esgrimir. Mas que não consigo nem desejo escolher. Terão que aparecer, ou uma após a outra, ou numa aleatoriedade que brote do rígido método da subjecção. Nem as consigo imaginar, e por isso me sinto impotente. Consigo-me imaginar a imaginá-las. E por isso me sangram os dígitos.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

presente.

Hoje quero uma resposta. Frequentemente porto calma e paciência por excesso. Mas hoje agradar-me-ia uma resposta. A nenhuma pergunta. Queria apenas ouvir uma frase espontânea que expressasse o mais directamente possível as intenções que sempre cobrimos. As que, pelo menos, eu não consigo por em palavras. Alguém me quer presentear?
Não-não, não interessa sobre o que é, apenas que seja genuíno, interpessoal. Bonito.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

é que eu não.

Sabes quando se vai correr, algures na paisagem campesina, onde os olhares são poucos e a discrição permite caminhadas de tronco nu, ao sabor do vento quente que carrega um sol sempre brilhante? Sabes quando, por acaso, encontras uma silhueta na distância, mas te sentes confortável com a tua figura, concentrado no exercício e com a palpitação a fazer ranger os membros desabituados? Sabes quando te aproximas da figura, deslocando-se claramente a um ritmo inferior, no sentido oposto, e acenas em assentimento, com um ligeiro inclinar do pescoço? Sabes quando o indivíduo, que se revela leste-europeu, sacudindo do seu farto bigode um pingo de sidroso da suculenta maçã verde que vem a comer, retorque com um "calôrr sinhôrr" e um sorriso engraçado? Sabes?
Ainda bem.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

vacilo.

Os hojes são a solidão, tão inextrincavelmente partilhada e, no entanto, tão repugnantemente ultrajante.

domingo, 28 de junho de 2009

pigmaleão da estátua rachada.

De que cor é a flor, que não se sabe de cor, na indignação da inacção – é da cor do coração.
Cansada metáfora, desgostada pela caneta até, mas não a deitemos fora, gozemos a falsa fé.
Que pigmentação a descreve? Nenhuma senão a do camaleão, que nunca prescreve, ampla como a imaginação, exígua como o esbatido mundo em que se inscreve. Onde está o beijo, que é mais que apetrecho, onde está o olhar, que é mais que atentar? Porque amo todas as cores, mas me visto só daquelas? As do conforto. Porque não quero querelas, quero o direito e não o torto. Esbatido sou, afinal, eu, que não me querendo mal, sigo o rumo que o bem perdeu.
Quero-me camuflar para poder surpreender. Quero saltar de súbito, sorrateiro e sempre ousado, e causar o espanto de que me tenho olvidado. Do olvido vivido, lembro, como quem recorda o omisso, o descomprometido compromisso de causar sorriso.
De que cor é o sorriso?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

o peso do mundo.

O peso de todo um mundo que não é peso meu, nem esse meu, o meu mundo. Pesa-me sem pesar, apesar de mundano ser o mundo que, mudo, não mudo. Muros mil, barram as milícias de pensamentos e exércitos de pensantes. E são os pensantes que, despidos, pesam; despedem-se da alegria pela alegoria, chorando e rindo, mudos e falantes, imaginando mudanças para mundos aberrantes.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

sexta-feira, 12 de junho de 2009

identidade em mim, no outrém.

Quem se fez pessoa,
Logo se desfez, enfim,
Comigo já destoa.
Comigo, mas sem mim

Quem é o outro que se fez primeiro, protagonista das histórias periféricas, memórias satíricas, escárnio da lírica de um grito abafado.

Quem quês questiona,
De nãos faz sim.
Outros três magoa...
Outros, mas sem mim.

Quem é o figurante, que não o autor em camuflagem, prevendo um futuro lembrado, pelos sábios, antigos, nas palavras que puseram na rocha.

Quem triste actua?
Depressa eu vim!
Todos, do Sol à Lua,
Todos, mas sem mim.

Quem é o texto, forma e substância, desespero e ânsia, ao limite do desinteresse, da indiferença, na diferença, no singular mais plural de todos.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

agudo impasse.

Tão grave que é a nossa dificuldade em dizer a alguém que lhe nutrimos sentimentos, aqueles do corpo, aqueles da alma. Correr o risco é a exposição dos fortes. Porque o medo é mais grave ainda. E somos todos tão frágeis, quando gostamos.

sou cego.

Escrevi o romance mais incrível de sempre. 1500 páginas e 3 volumes da mais bela prosa jamais posta no papel. As personagens mais cativantes, o enredo mais alucinante e surpreendente. As sensações mediadas na perfeição, as ideias sentidas em cada fragmento. A obra que, se lida, mudaria qualquer, todas as vidas.
Mas escrevi-a nas minhas lágrimas, esquecendo-me de que eram transparentes. Findado o rio, interrogo-me se a mera terapia não terá sido a maior história deixada por contar.

mimi de mim.

Por uma vez, gostava de ser o reflexo do espelho, e ser eu a troçar da fosca realidade.

reinação de dolência ambígua.

O travo de angústia dissipa-se no ar, cinzento, e remanesce a culpa do espírito que não consegue ser aquilo que quer ser. Frustra-se na solitária noite, coberta de insónia e desencanto. Quando o mundo convoca, para se concretizar, nas coisas de necessidade, range a inércia e a lividez da força. A tormenta da dolorosa consciência incontrolável implora por se apaziguar, nem que ao maior de todos os custos, a perda, o esquecimento, o ódio. Ódio será combatido com espadas de chamas e prestidigitações escuras. Até que as reminiscências de alento se findem. É essa a fantasia, a alternativa para uma existência pensante.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

apelo à não repetição e nitroglicerina.

Que ardam todos os calendários, fraquíssimas ilustrações de astronomia, um vício e um entretém. A marca do ano, essa que morra, e de vez. Aprendamos a não precisar de desculpas para celebrar e viver.

nove seriam demais.

A permanecer, em vez de existir. Lá!, na inércia da perícia, na inferência da demência. Em perenes estepes, solto as noites, como açoites, entre a mais idiota das idiossincrasias e a mais bela das interlocuções. Canso o mundo, porque canso o pensamento que, porém, se ergue faminto.
Dobro a folha de papel, aquela infinita, na qual escrevi todas as minhas palavras. Dobro-a uma vez. E outra. Duas mais. E dobro o número de dobras. Como o infinito que se ergue, esfera sobre esfera, as dobras arriscam-se a não existir senão na alucinação de poder colocar todas essas palavras na algibeira.
Permaneço, porque me esqueço de como existir. Bato em mim, forte, levemente. E acredito, só e apenas por ser absurdo.

terça-feira, 26 de maio de 2009

m.

O banco de jardim é o lugar mais triste do mundo. É-o porque neles, já todos fomos tão felizes. É o lugar predilecto dos beijos, como das lágrimas. É esplendoroso quando o sol raia, porém não mais do que quando a chuva tudo ensopa.
Os meus preferidos são vermelhos. Esses dotam a paisagem de um contraste peculiar, necessário, com o verde envolvente. O subtil drama que se trava catalisa qualquer experiência, sem que sequer notemos.
Ahahah. Que gargalhadas já neles soltei, quase tantas quantos os suspiros. Gosto de levar um livrinho, daqueles manejáveis, pela palma da mão, mas não pela mente. Aqueles que encantam o pensamento, o expandem, e o deixam dorido e desejando mais… pelo que se contenta em contar as relvas, congeminar as copas das árvores e matutar os cantos dos pássaros.
Aprecio o rígido conforto que tão bem garantem. É o rabo de cada um que tem que se moldar às suas sempre diferentes formas, que deixam sempre diferentes baixos-relevos sobre a nossa indulgente pele. Aprecio a sua iminência aos ares frescos, que limpam o pulmão e nos fazem sonhar com tempos em que o mundo não era um lego dos vícios dos Homens. Aprecio o facto de terem uma vista fixa. Se uma qualquer não nos satisfizer, podemos sempre encontrar outro. Existe sempre outro. E que seja vermelho.
E há tantos jardins, e há tantos bancos. Basta procurar, sem que a busca seja intencional ou evidente, o momento certo, no banco certo, no jardim certo. Certo?
O banco de jardim é o lugar mais triste do mundo. Neles, já fomos tão… Trazem a inevitável saudade e o desejo de reviver. Mas nunca é tão triste quanto quando está vazio, e nos lá imaginamos, comendo um gelado, discutindo poemas, trocando carícias com a pessoa que o banco implora que lá tragamos.
E a verdade é que o meu desejo é sentar-me num banco de jardim, a olhar em volta, sem propósito algum.
Bem acompanhado.

domingo, 24 de maio de 2009

quanto.

Contemplo, ao longe, de demasiado perto, a 3,141592653589793
238462643383279502884197169399375105820974944592307
8164062862089986280348253421170679rótecnia da alma, fogo
de artifício quase tão quente como o 666.
Fui ao 10100, tentar encontrar-te, 13, mas a aliança não era de
1.6180339887498. Não dá para não querer 1,1,2,3,5,8,13,21,34,55,89
contigo. 1,1,2,3,5,8,13,21,34,55,89 seria 6.
E não penso que haja algo de ∞ senão a própria ideia de ∞.
Mas há coisas que muito o almejam ser.
E outras que são, tão simplesmente, 0.

sábado, 23 de maio de 2009

esfera, que rolou para longe, quando eles não estavam a olhar.

Galgaram cumes e sopés de montanhas, em passos hiperbólicos, mitologicamente divinos, divinamente mitológicos. Trouxeram as chuvas, e sopraram-nas para longe. Fizeram a terra crescer verde, erguer-se por uma vontade. A luz brilhou de uma nova forma. Escura, diria. Os fundos dos oceanos pareciam efémeros, e leves. E os desertos! Aqueles desertos, monotonamente perigosos e arrebatadamente purificadores. Eles marcaram ravinas nas montanhas, ditaram nuvens e trombas de água, cuidaram das plantas e cheiraram as flores, aquecendo-se ao sol, sonhando com os mares, deixando pegadas nas areias. Um dia, as neves tudo taparam. As cinzas sorveram os céus, engoliram a neve, e tudo rodopiou sem fim.
Eras vieram e foram; os anos nem sequer eram perceptíveis. Quando as neves derreteram, cinzentas, pardacentas, deixaram uma uniforme e fina camada de líquido a toda a volta do orbe, curiosamente cúbica. Já tinha nem relevos nem texturas. Nunca mais nada lá assentou raízes, cresceu, mudou.

domingo, 17 de maio de 2009

faminto.

Onde está o meu jantar? Que prato é este, vazio? Porque é que o empregado, fina e elegantemente vestido, não tem cara e me apresenta uma carta que é não mais que uma folha em branco? O meu estômago ruge, sem alma.
Não como há 73 anos. Sou apenas osso coberto pela mais leve de camadas. Não tenho carne que chegue para que enrugue a minha idade na face. Conto os dias pelo crescer dos meus cabelos, peculiarmente fortes, crescendo como os de um saudável jovem. Estou algemado, bem no centro daquilo que aparenta ser o melhor restaurante, abaixo dos céus. Todos os dias, em três turnos, vejo os mais abastados serem servidos com as mais delicadas e sumptuosas criações gastronómicas imagináveis. Na sua deplorável gula, enfardam os vazios deixados pela anterior refeição. Bebem, gritam, cospem e engasgam-se de entusiasmo. Não me conseguem ver, estou demasiado no seu centro, no centro deles. Sou um risco na lente dos óculos.
Eu, que não me recordo sequer vagamente dos odores ou paladares da anterior refeição, já nem sei se a desejo. Já não sei se a vontade biológica morreu. Verdade é que eu estou vivo, ou pelo menos assim julgo, nos intervalos entre me tentar lembrar quem sou, porque aqui estou, o que fazia antes de aqui estar, e pensar se não será este um qualquer inferno. Lógica deixa de se preceder, e pede-me a admissão do meu perecer; mas não tenho forças para suportar a lógica.
Onde, onde está o meu cear? De que me serve o garfo? Tantas vezes o espetei no coração, apenas para ele se desfazer em mercúrio, como que por escárnio de mim. O gentil-homem que só a mim serve, cego, surdo e mudo, aproxima-se, de novo.
O diabólico menu volta para a minha escanzelada mão. Nele jazem unicamente as palavras: já chega?

domingo, 10 de maio de 2009

e ele, que fazes tu amanhã.

Hoje percorri as ruas sozinho... e invejei-as; e elas tiveram pena de mim. O tempo parou.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

tatuagem.

Descobri que tenho uma tatuagem. Curioso. Parte dessa tatuagem, que é um lembrete e uma promessa, é não ter tatuagens. Pelo menos na pele. Porque essa tatuagem está inculcada no íntimo da minha mente. Tem tantos signos, tantas juras... essa tatuagem faz-me. Não sou "eu", porém é constitutiva de mim. É o tecido texturado e desenhado, e pintado, e visto, e adorado, e cuspido, e sangrado que me une, que me faz permanecer quando tudo à volta muda. Torna-se na minha identidade, se chamar isto à parte de mim que posso confiar ser o cerne de todas as mudanças envolventes que vivo. A parte que venero em mim, de mim, para mim. E é rica. Faz-me gostar de mim, faz-me odiar-me. Mas essencialmente faz-me.
Não é uma grande verdade, ou uma despropositada ilusão. É todas as coisas que vivi, e todas as coisas com que sonho. É... sei lá. Não a quero pensar, não a quero cansar. Também não a vou contar ou revelar. Simplesmente deslumbro-me com a ideia de a ter descoberto.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

mais coisas novas.

Impalavravelmente psicossomático.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

inspiração desinteressada.

Uma das inúmeras características da natureza humana, do seu metafísico sublime, miúdo sublime, é aquilo que descrevo como a sua anticronogenia.
O corpo envelhece, na fatídica biologia do eminente. Mas a mente, move-se pelo tempo, na conformidade do fulgor humano, não nas sensações ou entendimentos, mas nas epopeias pelos mares de regimes simbólicos. Se na face cansada nasce uma ruga, cabe ao singular decidir se rugará também a sua consciência. Cabe!, de uma maneira ou de outra, com ou sem controlo dos destinos.
A mudança é contratemporal se for orientada no sentido daquilo que ainda não houve. Aquilo que está por haver é uma mera ficção do passado, mas a coisa que ainda não houve... é para essa invisibilidade que a vista de ensejo ruma. Mira.
Também a actualização é um processo, bem mais comum, de mudança positiva. Não se aproxima do real, mas é a vontade de querer tocar a vanguarda da realidade. Desejos.
Porém, o ente individual não assim age a menos que tenha uma força que o mova, que compele, que agite a estrutura, para que nas rachas, nas rugas se refortaleça.
E assim, como que por distracção, encontrei a, fracamente concebida mas bem localizada, definição de amor. Amor humano. É a criação de tempo fora das linhas do mundo físico, já bem na beirinha da transcendência, mas sem a presunção de a tocar.

estranhamente.

É o escritor quem espera.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

sexta-feira, 17 de abril de 2009

coisa humana, matéria e substância, todos os casos, campos e desafios.

Tudo que se possa dizer é falar de amor. Seja que tema tiver, qualquer a combinação de palavras, sons, imagens, cheiros, paladares, texturas, … todas se encontram, não!, todas se dirigem para o amor. É essa a mais genuína expressão humana. A sua busca e concretização. Por distinto o assunto ou antagónica a tese, fala-se sempre de amor. Desafio a comprovação. E a surpresa da descoberta.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

olha para outro lado.

Fito o espelho e não me reconheço. Ele fita-me de volta, ainda mais perplexo. E emburrecemos, horas sem fim, olhando um no outro.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

cruel demais.

A sorte foi a casa ter inundado.
De belém, coma vi dar. E ti, sem cias.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

ora.

E não, não vou parar de escrever, só porque já não tenho olhos que leiam como noutros tempos. Eu disse, outrora, ora, que o faria.

já conheço essa estória.

Aprendemos a lidar com o mundo pelas ficções das outras pessoas que vivem esse mundo, antes de nós. A cronologia torna-se progenitora da experiência.
Passamos os dias lendo, visionando, ouvindo, fragmentos dos que nos rodeiam e têm a impertinência de se partilhar. Inúmeros já se partilharam. Inúmeras histórias já foram passadas entre indivíduos. Conhecemos o mundo bem demais, nesta esfera demasiado pública.
É, sim, é um conhecimento ilusório, mas facilitador da criação de um outro, mais elevado. Esse é construído com a faculdade do juízo crítico, que distingue aqueles que encontram alicerces na razão ponderada e metódica, daqueles que não adquirem essas técnicas, e são levados na derrocada de um lamaçal de cultural por destilar, não sabendo que aquela terra é, exageremos, merda.
Temos faros distintos, uma predisposição que varia conforme todo o processo de amadurecimento intelectual e emocional, sujeito das partilhas no mundo comunitário. Vivemos algo mais que uma multidão. Algo mais fundo e tocante.
As ficções que se cultivam no imaginário colectivo permitem-nos uma certa clarividência no quotidiano e no extraordinário. Fornece-nos com soluções, com certos e errados (outro tipo de ficção metafísica, na falácia da dualidade da vida) e com um reflexo empírico que chega a mudar a forma como percepcionamos, percebemos e sentimos os mundos.
E chegamos a um ponto no qual pouco há de novo a viver. Já tudo vimos. Mesmo a força das coisas que ainda nos convencem que há mais e maiores experiências a nossa espera é suavizada pela impetuosidade de um déjà vu, colateral à eminente narratividade cíclica das situações.
É nem bom nem mau. É como é.

intermitência visual dos pingos.

Quem diria. Chove. Pode ser que esta cerúlea lacrimogenia arraste consigo as gotas de um firmamento cerradamente enublado.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

quinta-feira, 2 de abril de 2009

transcríptico de um grito.

aAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH.

E a loucura que se aproxima, entre vírgulas tão pungentes.

segunda-feira, 23 de março de 2009

ouvem-se as cotovias no fundo do mundo. e ressoa uma cotovelite nos ecos de mim.

Mea culpa esta enfermidade da eloquência da verdade. Retórica perdida. Atritos aquecem, no ferruncho que vai além do horizonte, e numa admissão que custa tragar, na boca que a recusa expelir. Zelos pouco razoáveis, que nascem de um zelo demasiado grande. Nada razoáveis. Os pássaros lá vão cantando, nesta Primavera que cresce, na comiseração que destoa e que desprezo. Ciar é despropósito, e lástima da vergonha. Mas é Primavera. Que as flores me engulam de alegria, porque há uma flor que me alivia.

Não é papoila, mas puxa-me (pusherman). Hahaha. Faz-me também rir. Rosa branca, tulipa negra. Não esquecer os pássaros, que dão música aos chãos e movimento aos ares. O riacho corre e cintila. É Primavera, e fico embarassado com tanta vida que de ti surge. Verdes são os campos. Mas hão-de amadurecer. Prometo.

sábado, 21 de março de 2009

mesa.

Quatro cadeiras em volta, e um naprón bordado com carinho. Um jarro com meia-dúzia de lilás e o sol poente a espreitar pela janela. O barulho da porta que cede passagem à vida das pessoas.

Uma refeição meio comida, migalhas e manchas de vinho na toalha. O silêncio da digestão e o rádio de tempos antigos. Um jogo de xadrez antes do deitar.

Cinco amigos jogando as cartas e contando as suas biografias, emocionantes e monótonas. Todos os segundos são tidos, nenhum é esperado. A hora de voltar para casa.

a uma quimera da paz.

Tão cansado de lidar com avatares de coisas tão maiores...

terça-feira, 17 de março de 2009

isto nem sequem aconteceu.

C’um cabrão! Quão eloquentemente entornei a minha bebida sobre a mesa. Logo de seguida contei uma história de mim, que mostrou quem eu me escondo. Quem eu me escondo. Lanço graças que o praguejo confessado tenha absorvido todas as atenções, e nenhuma tenha sobrado para os anais de um tipo imbecil o suficiente para entornar a sua bebida.

como quem se sente nu, e estranhamente erecto.

Há pessoas que nos vêm e ouvem como transparências. Pessoas às quais não conseguimos, mesmo que queiramos, mentir. Uma frase não engana. Um olhar não embusteia. Quando nos fazem uma pergunta, notam claramente aquela fracção de segundo em que viajamos até à parte de trás da nossa mente, à nuca das nossas intenções, e, quando fazemos o caminho de regresso aos sentidos, tão logo!, já nos encaram com uma visceralidade que nos faz palpitar. Trazem-nos ao mundo, trazem-nos mundo. Forçam a lhaneza do trato, como quem gosta e se preocupa. É dessas pessoas que me quero rodear, pois fazem-se ser alguém melhor.

promessa que prometo nao cumprir.

Um destes dias, hei-de comprar um livro só pela sua capa velha e enrugada, gasta e desprezada, nalgum bazar de coisas de outros tempos, e nunca o lerei.

segunda-feira, 16 de março de 2009

sequela do mártir do amor.

Já adormeceu... estou curioso quantas horas a vou ficar a ver.

episódio de romance.

No momento em que escrevo este texto, vejo a donzela dos meus sonhos adormecer. Imploro que ela não abra os olhos, para que não me veja chorar.

domingo, 1 de março de 2009

mãos.

Sinto alguma ferrugem nas articulações da mão direita. Falanges, falanginas e falangetas corrompidas pelo tempo, pela preguiça de evoluir, entram em artrose, e calcificam, por ordem da barreira da arte e do engenho. Nas letras que dela fogem, escapam, peca a proporção áurea. As unhas, pintei-as em cores alternadas, mas só na mão esquerda. A outra ficou intacta. Estão compridas, como quem quer rasgar visceralmente a folha escrita. As extremidades dos punhos estão enrugadas e cicatrizadas por anos de murros frustrados em paredes. Com a palma me esbofato, na esperança de acordar.

prótese metálica.

Fui amputado, numa explosão terrorista. Perdi a crença na imaginação como regedora da realidade. Agora tenho uma prótese metálica, com uma ligeiramente diferente capacidade térmica mássica... coisa fria.

é a minha vez de pagar.

Soa o ecoar de uma máquina de escrever… apesar de possivelmente não haver nenhuma a quilómetros.

Levei um meu amigo a sair. Tivemos com amigos e falámos sobre coisas.

Olhei para o meu amigo e disse: isto é um copo. Nele esta contido um líquido que identifico como água, ocupando cerca de um terço do volume interior do objecto. As suas bordas são trabalhadas, o seu pé cresce para um cabo helicoidal, e flores tatuam as suas faces, que são uma só. Não faz muito o meu género.

E, na verdade, tanto quanto sabia, aquilo era um copo. E nele estava contido um líquido que seria água, e que o preenchia, aproximadamente, em um terço. Tinha bordas trabalhadas, um cabo helicoidal e flores como adereços, em relevo. Facto era que não me aprazia esteticamente.

Fiz, portanto, bem dizer aquelas coisas.

Passo agora a descrever o que aconteceu, o testemunho não adulterado, da perspectiva do copo: “…”

E o meu amigo, cujo copo transbordava de rum, nos seus eufóricos acenos e esbracejares, não deu dois momentos de atenção àquele copo. Ai! Aquele copo. Porque sim, era um copo de água, dois terços vazio, de orla ornamentada, cabo em curva e faces floridas. Aquele copo falhava em me agradar a vista.

E cada um rumou para sua casa. Menos o copo. O copo que…

a primeira em uns tempos.

Dói tanto. Escorre, puta, mas não esperes ser confortada. Estou tão sozinho quanto tu.

só isso.

Não desejo aqui retomar, numa infiel transcrição, o sentimento de diálogos passados, por importantes que tenham sido. Neste momento só uma coisa me toca.

Lanço o grito de quem admite ter, nestes tempos, tido apenas um tema. Peço desculpa a mim mesmo, sem que alguma vez chegue, sequer perto de, me culpar, tal a alegria que me acalenta.

Vivo uma ficção fantástica, gerada em remotos traços da imaginação romântica, palpável, apesar de longe das minhas mãos. Vivo a alegria maior do ser, vivo a paixão pelo momento, o desejo da partilha e os sonhos que os ligam. Vivo a estranha amálgama entre pretéritos e fados por cantar. Vivo-o, virtualmente.

Mas, neste momento, só uma coisa me toca. A saudade. E quem é ela para me perturbar? Quem é essa sensação de nojo, sorumbático; de luto, frio árctico, para me trespassar como ar que voa sem direcção? É a coisa maior. Nem a acredito. Nunca antes a tinha sentido… deve ser fruto de outras coisas que nunca antes senti.

Será mero resultado de uma exponente distância que torna proibida a concretização?
Não. Aquilo que é, era-o já antes da distância. Tão real.
Será coisa leviana, ardor inflamado que chega como explosão que tudo queima, para já nada ter para arder?
Não. Não explode. É um calor de todas as cores invisíveis, que queima suave, gostoso mas não efémero.
Será um infortúnio das probabilidades, que juntou uma lua e um sol em eclipse fugidio?
NÃO! É eclipse permanente, imanente, que sente e nunca mente.

Digo estas coisas sem estilo ou artificialidade do engenho das palavras e das ideias. É, simplesmente, a forma mais simples de expressar as coisas que de mim brotam, confesso. Não é particularmente bonito. Não o é suposto ser. É, só, coisa forte demais para conter em mim. Só isso, estas ideias.

uma alguma demora.

E um regresso, depois da reabilitação de energias, e da apreciação da sinergia, improvável e maravilhosa.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

quem-quê.

eu. fórico.
tu. fónico.
ele. fálico.

todos...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

glossário de coisas que fazem tremer.

Medo é a provação do sentimento, pois a sensação infalível é efémera.
O nervosismo é a sua expressão de genuinidade, pois palpitar é a sinceridade das palavras contidas, esperando ser expelidas.
Atrapalhação é a insuficiência de conter e gerir correntes e marés de emoção, pois são tão amplas a comoção e o espírito.
“Trunfos” são segredos. Esses devem permanecer crípticos.
Expectativa é a enfermidade viciosa que lesa, pois o é não mais que falar e pensar, ao invés de dizer e agir.

Atrapalho-me perante o nervoso medo de destrunfar expectativas.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

brincando com fogo.

Tive as mãos frias por muito tempo. E quis aquecê-las, tanto quanto queria viver. Alongar-me pelos dias, com mãos frias, é um trajecto hediondo, circunspecto à perversão da solidão, na ortodoxia moral do convívio. Inibi a libido, mesmo com o censor embebido. Fiz a contrição da inacção, na inércia de perícia, de momentos destempados. Porque as mãos frias, não devem ser colocadas sobre o fogo. Pôr a mão na chama aquece rápido, mas, no dia seguinte, chega a percepção da queimadura, e o frio acaba por voltar.
Então, pus-me à distância certa da chama, como quem chama sem sequer falar. E o fogo tornou-se lume, a labareda incinerada transformou-se num ardor endógeno, mas não menos incendiário. Piromaníaco tácito, era eu. Falo de um abrasamento que insiste em não diminuir, uma contradição da física, um calor que cresce, sem fim nem aparente origem. É a explosão mais confortável, que me preenche, me provoca, me justifica. Deixei a chama respirar, e cresceu. Já a sinto.
Chuva nenhuma a apagará, agora que vive debaixo da pele. Que venham 12 Invernos seguidos. Não me assustam. Pois encontrei, nas cinzas das lágrimas vertidas sobre a lareira, uma nova Primavera.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

dedada no vidro embaciado pela névoa de formas ainda pouco definidas, mas pacientes.

Gosto de entrelaçar dedos. Protuberâncias petulantes, apraz-me chamar a estes anexos atrevidos. Gosto de os entrelaçar.
Uso-os para apontar, profanar, prometer, diplomar, opor. Uso-os para atacar, defender, agradecer, acarinhar, escrever. Uso-os para tanta coisa.
O meu gosto em entrelaça-los, como quem diz que todos os puzzles têm solução, implica a intimidade das partes. Entrelaçar é tornar num só, especulo, no espectáculo da união dos corpos. Experimentem segurar as vossas mãos.
Também os há nos pezinhos, mas esses não foram feitos para obras de tal complexa natureza.
Dedos, delicados, podem ser deliciosos, ou impertinentes. Podem chamar ou despedir. Podem aprender as formas, podem criar as formas.
Dedos são diários dotados de identidade. As suas articulações são proporcionadas no número da vida. Os seus dígitos são únicos. Dedos são únicos.
Gosto de os entrelaçar, mão esquerda no bolso do casaco. Ou ao vento. Ou a segurar a bengala. Gosto de entrelaçar dedos contigo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

psicagogia de ti.

Apeteces-me.
O apetite é uma volatilidade da alma. Mas as razões da alma, essas são sólidas como o chão. Imiscuem-se em combinações improváveis (sempre improváveis), e agonizam a vontade, fazem-na sofrer. Então libertamos-nos de tudo aquilo que é perecivel, e agarramo-nos ao desejo, eterna origem de todo movimento.
Desejo. Como desejo aquilo que desejo, aquilo que anseio, no momento de ensejo. É uma leveza, como mão que acaricia a face, que sente os cabelos… mas que rapidamente se afasta, e nos deixa a cobiçar mais. Vem a inquietude.
Quando a alma perde a calma, … que alma?
Quando a alma perde a calma, o sangue fervilha, a mente exala sensações ausentes, como que libertando o referencial para um faro delicado. E começa a busca. É uma busca alheia a obstáculos. São-lhe meros pontos de passagem, entreténs do tempo que peca em se consumar. O consumo torna-se a fonte e o fim. O início e o vício. De tudo.
Apeteces-me. Fazes-me palpitar em emoção. Cada passo de distância, por mero contratempo, fere, angustia. Cada centímetro. Mas busco, sempre. Tento até ao limite do alento.
Tocar transcende qualquer reciprocidade de palavras. Por bonitas que sejam. O apetite é a volatilidade da alma, mas esta só se consuma nos corpos.
Corpos. São os portadores da sensação. Da química que perece explicação. Que assim seja.
Tocar transcende o próprio sentimento, por delével que lhe seja em comparação. Tocar, físico no físico, é a intensidade maior. Cheirar é a raridade do suspiro. Provar é a iguaria do prazer.
Apeteces-me. Apetece-me tocar-te, cheirar-te, provar-te, além do potencial de qualquer diálogo, por variado e excitante que possa ser. Basta-me a tua singularidade, única, minha. Apetece-me ser-te apetecido.
Guardo este grande apetite num pequeno frasco e dou-te em mão, para que não duvides da alma que partilho, e do corpo que espera.
Apeteces-me.

sábado, 24 de janeiro de 2009

pequena confissão que há.

Não to consegui dizer. Nunca. Agora acho não mais to conseguir ocultar.
Decantei a minha intenção e, depois de a deixar respirar no mundo, no vento, na chuva, nada se lhe equivale mais. Nada se lhe compara. É maravilhoso.
Não faço isto há tanto tempo. Mas quero isto, há tanto tempo. Quero-o além do absoluto solvente do tempo, além da mágoa ou do medo, que me tanto me assolou. Não me entrego há tanto tempo. Mas há tanto tempo que me quero entregar, a ti. Só a ti. Quero conhecer os fragmentos mais recônditos do todo que tanto admiro. Quero dar a conhecer as minhas camadas também. E tenho tempo. Tenho o tempo do mundo e os meus ouvidos. Tenho tenho a paixão do tempo, e a minha boca.
Jamais te premerei, como o faz o cárdio, no meu peito. Ver-te em todas as coisas, mais que nunca, é confissão de um sentimento que não se deixará acorrentar, enclausurar. Soltou-se. Não se voltará a esconder. É livre, no ímpeto de ti.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

isto sou eu a ter cuidado com o que escrevo.

E decidi vir a pé. Queria que o passeio durasse para sempre. Explodia, internamente. Não conseguia desgarrar o sorriso da minha face. Nem aquele sabor. Aquele toque permanecia, indelével. Queria que o passeio durasse para sempre. E todo o caminho saltei joguei pulei corri dancei. E lembrei-me de todos os futuros que tanto desejo. Queria que durasse para sempre. Durou 4,4 quilómetros. Durará para sempre.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

como se chama aquele moço de mão dada à capuchinho vermelho? pedro! é esse o seu nome.

Ele é o lobishomem. Ele é o lobo mau. Como nos contos de fadas. Ele é o lobo mau.
Será que ele nunca terá uma oportunidade? o lobo, o pedro.

sábado, 17 de janeiro de 2009

em cima de tudo mais.

Ergofobia, ao nível do obsessivo-compulsivo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

sensatez vs sensação.












































ai tenho k escrever algo?..
só pus isto pk achei o título giro...

mensagem para ser lida daqui a alguns dias – nessa inércia ou na do nunca.

No outro dia escrevi sobre cartas. Penso, agora, numa particularmente especial para mim. Marcou-me, mas mais que isso, eu marquei-a. Ela já estava marcada, mas cunhei-a com a minha paixão. E lembro-me de um dos meus poemas preferidos, sobre a ridicularidade das cartas.

Fica para mim este mistério. O seu enigma, podeis lê-lo se quiserdes, amigos do futuro, a quem todos os textos, todas as cartas são enviadas.

espero que levis isto contigo.

Não sei onde quero estar. E se sei, não lá estou. Também ainda não sei se me dei ao trabalho de descobrir se lá consigo chegar. E se dei, não consegui.
Mas hei-de descobrir, um dia destes. Um dia menos obtuso, ou talvez mais. Um dia mais imprevisível, um dia com menos páginas para escrever. Um dia em que o imprevisto seja previsto, seja escrito por mim.
Hei-de descobrir porque há uma alguma força. Uma corrente invisível que puxa do peito, inflamado. É o melhor que a consigo descrever. Para onde ela puxa… não quero saber.
Eu não quero saber o meu futuro. Se quisesse, recorreria ao meu bolso esquerdo, fonte da minha omnisciência – de onde eu vejo todos os passados, futuros, todas as conversas, todos os textos. Guardo tudo no meu bolso esquerdo, menos um espelho. Nunca um espelho.
Resta esperar.
O meu bolso direito, esse é uma sala de espera. É a fonte da paciência do mundo. Tenho todo o tempo, ou isso alucino, no meu íntimo. Sem ele teria delirado toda uma vida, imponderada e com menos significado, mas não menos significante, suponho. O meu bolso direito é particularmente grande. Nunca tão grande como o esquerdo, especialmente depois de ter sido atropelado pelo autocarro da injustiça, mas essa é toda uma outra infantil metáfora. Tenho a certeza que há por aí, nesse mundo, coisas pelas quais vale a pena esperar. Dois minutos. Quinze dias. Uma década. Várias vidas.
Se guardasse um espelho no meu bolso esquerdo, se pusesse um relógio no direito… então não valeria a pena usar calças… nem roupa… só um robe, em frente da tv, todo o dia. O conhecimento seria um produto para consumo, e a espera reduzir-se-ia à demora do ceifeiro. Porque sair de casa não seria emocionante. E sem emoção… sem emoção não há futuro, só sequencialidade.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

e há também folhas brancas.

Coleccionamos folhas, ao longo de uma vida. Documentos da mais diversa natureza. E fazemo-los para nos definirem. Fazemo-lo para nos categorizar. Coisas distintas.
Contei todas as incomensuráveis letras que me descreveram, ao longo de uma vida. Ou talvez tenham sido mais, as vidas, as letras.
Coleccionamos folhas, ao longo de um traço contínuo das nossas poesias. Como versos que nunca se soltam, uma pena que nunca emerge para respirar, e volumes que se acumulam, com o adensar das sensações.
Coleccionamos folhas. Elas, os escritos de outros, as suas palavras, músicas, quadros, filmes, suores, sangues e lágrimas… são não mais que a nossa própria vida.
Coleccionamos folhas, à largura do horizonte. Alvorada canta a geada. E os pássaros concordam.
Eu colecciono folhas. Mas as folhas ardem. Há textos que só se concretizam enquanto tal quando forem queimados como cartas aos mortos, e o seu fumo se perca na planície dos céus, dos mares… das terras e dos desencantos.

e tu, que fez ele amanha.

Hoje circulei as ruas, acompanhado de três bonitos sorrisos. As ruas invejaram-me.

leia o que abaixo se segue.

veja o comentário.

volatilidade explosivamente pacífica.

Arde. Ferve por dentro. A raiva ferve por dentro.
Gosto de escrever na paz da alma, para maximizar a contemplação dos temas e das sensações. Fingimentos são demasiado complexos para a finalidade destas coisas. Hoje escrevo abstracto, absorto, esgazeado como se tivesse estado a olhar o céu estrelado tempo demais, a inspirar dióxido de carbono desta urbe. Tempo demais.
Por falar em tempo demais, parei a meio deste parágrafo, e hora e meia depois, a raiva dissipou-se numa névoa de desgosto e tristeza. A sucessão dos sentimentos. Seria um livro interessante. Oiço um dos meus álbuns preferidos, aquele que guardo para os momentos de real mágoa, e nele me perco, olhos fechados, no escuro. Nunca abram os olhos no escuro. Chorarão.