Encontraram-se por entre o caos deste mundo. Ele e Ela. Dois. Ele e Ela. Um vinha do Norte, outra do Sul. E bastou olharem-se, trocarem palavras, para se saberem um ao outro.
Passeavam, todos os serões, pelos jardins botânicos. Curioso, porque o nome dela rimava com o de todas as flores. O dele, ela dizia tão baixinho… tão ligeiro e caloroso.
As suas conversas tinham sempre início, mas nunca fim. Falavam de passados, e do caos do Mundo. Aprendiam, um com o outro, como desculpa para se aprenderem. Desculpa tão descabida, quanto justo o dar-de-mãos. Ele sonhava com futuros. Pensava mudar o Mundo, o seu. O de Ela. Ela fazia algo de semelhante. Diziam, em brincadeira as verdades, e diziam com certeza as contingências. Mas nunca se diziam inteiros.
Fosse o mundo de um o outro, Ela dele, Ele dela, sempre o sol luziria, de dia, até de noite. Mas o mundo é só do Mundo. E esse é vasto e complicado. Esse é egoísta. É cheio de pessoas, e essas cheias de ideias, soprando nas ondas para tentar concorrer com a lua, perdendo, vez após vez, por cada um apontar para um lado diferente.
Viviam num país conturbado. Num daqueles onde os trópicos garantem sol e chuva todo o ano. Alentos e vontades sem fim…
E por isso, entre conservadores e revolucionários, reaccionistas e anarquistas, entre activos e desinteressados, entre livros de leis e revólveres, fez-se a guerra, adiando por mais umas gerações o sonho da paz perpétua. Despoletou o conflito, como sempre acontece entre Homens. E a terra gritava pelo sangue dos seus, por se sentir salgada demais.
Por justo que o aperto-de-mãos fosse, multidões enraivecidas agarravam, com garra, absorviam as suas juventudes, e aquelas duas, belas e apaixonadas, foram puxadas por vácuos opostos, por um troçar cardinal, de povos que se insultavam com a palavra da morte.
O medo encheu-os. A separação de algo que tinham nem começado era inconsolavelmente ríspida. A sua vontade mútua inabalável.
Ambos serviram os seus países, a isso obrigados. Ambos foram capacitados de responsabilidade organizacionais. Gestão de informações. Comunicações à distância. Mas toda a pressão da guerra, todo o sofrimento civilizacional não chegava perto de ser suficiente para os fazer sequer piscar enquanto olhavam o horizonte. Os meses passaram, e não se voltaram a falar. Nem se sabiam um ao outro bem. A única troca entre os povos era a de balas. Tantos entes queridos deixados à deriva, pala lá das linhas da frente, e um consenso de impedir que se vissem, que se tocassem. Tudo por um qualquer sentido de união que não coincidia. Fosse a razão palavra de ordem… mas nunca é. Pessoas são seres de carne, pulsações e pulsões. Tão imponderadas.
Tanto pensavam, um no outro, Ele n’Ela, Ela, n’Ele, que se descobriram, nalguma frequência improvável, nalgum canal estranho, num daqueles que envia o som, através do espaço, por uma magia qualquer. E choraram de alegria, por ouvirem a voz que pensavam para sempre ter perdido. Falaram meses mais, em medo permanente de serem descobertos, considerados traidores. Talvez mortos por isso. Mas não importava. Só uma coisa importava. Aqueles passeios longos, que todas as noites viam quando fechavam os olhos, ao som um do outro.
As guerras primam por ser duas coisas: pacientes e impacientes. São criaturas de apetites, não de hábito. Naqueles dias tinham um grave apetite. O Norte e o Sul tornaram-se abruptos, e atacaram-se como se não houvesse amanhã. Entre o terror, nada mais importava senão Ele e Ela. Mantiveram a conversa aberta, enquanto de um e de outro lado o som de bombas crescia, cada vez mais assustador. Pensavam dizer tudo quanto nunca tinham dito, soluçando com o tremor de cada impacto, progressivamente mais próximos.
As ordens foram dadas. Os povos, filhos da mesma mãe, decidiram que só um sobreviveria, como o fazem apenas os mais terríveis dos irmãos. De um e outro lado do rádio, soo um rugido feroz, de maquinal genocídio. Maior que qualquer outro. Tão grande, violento, que lhes tornou todo o corpo num arrepio. De um e outro lado cresceu a expectativa por ouvir uma palavra. Uma que fosse, qualquer que fosse, que assegurasse o bem-estar do mais querido dos entes. Ele teve o mais profundo dos temores de chamar o rádio, a convocar a sua resposta. E se não houvesse resposta? Que faria Ele, se perdesse a coisa que mais queria? Se Ela gritasse por uma confirmação de vida, e nada ouvisse senão eco? Ao mesmo tempo, ambos julgavam, em esquizofrénicas espirais, que o silêncio recíproco era agoiro infernal.
Os minutos passaram, enquanto as últimas bombas caiam dos céus. O amenizar dos impactos fazia prever a trégua forçada. Um dos lados teria decerto ganho. Não importava qual. Minutos? Não, foram anos de silêncio, anos de incomparável solidão. Mas pareceram décadas.
Nem uma lágrima, nem um suspiro foram soltos. O feedback seria incapacitante. A possibilidade de perder aquela pessoa… dor demasiada. Preferiam correr o risco não se terem, de não viverem aquilo que desejavam, a sabê-los perdidos no negro sem fim. E por isso nunca se souberam.
Os separatistas foram victoriosos. Cresceu uma gélida barreira entre os povos. Um outro tipo de guerra, no qual o barulho das espingardas em danças de azáfama foi substituído por uma arrepiante mudez. Durante muitos anos, não houve contactos entre as comunidades, separadas por uma serra de desprezo, que cresceu onde antes havia jardins botânicos.
Mesmo quando finalmente a serra cedeu em erupção, e as pessoas se reencontraram, Ele e Ela nunca se procuraram, senão no espelho, com um suspiro e um sorriso, todos os dias.