domingo, 11 de outubro de 2009

palavras.

Por vezes, estranhamos as palavras.
Elas são-nos o meio, a conduta, o caminho mais comum, nos dias presentes. Na iminência e na distância. Têm mil formas, mil códigos, mil fins. Infinitas conjugações. Algumas mais interpretações, ainda. Alcançam-nos por todos os sentidos, como o tem que fazer a poesia. Usar palavras é, por si só, uma performatividade poética, uma demência ética, algo que nos é tão banal, e tão desmedidamente singular, especial.
E, às vezes, estranhamo-las. Ou por as encontrarmos fora de contexto. Ou por lhes darmos uma atenção inédita. Ou por as repetirmos consecutivamente, até parecerem pouco familiares.
E estranhamos-lhes o som, a escrita, o sentido.
E, às vezes, estranhamo-las. Ou por similitude a outras. Ou por nunca as termos encontrado. Ou por nunca termos deixado de as encontrar.
E estranhamos-lhes a forma com que saem dos nossos lábios, entram nos nossos ouvidos, ou ecoam nas nossas mentes.
E, às vezes, estranhamo-las. Ou por nos recordarem momentos e lugares. Ou por agoirarem passados no futuro. Ou por estarem perdidas nos labirintos simbólicos que para elas inventamos.
E estranhamos-lhes a forma como rasgam com tinta a folha branca (traço visto de longe), os peculiares movimentos que obrigam as nossas mãos a executar, a associação de particulares vogais e consoantes.
E, às vezes, por vezes, estranhamo-las. Ou por nos tocarem tão fundo. Ou por nada nos transmitirem. Ou por simplesmente nos apercebermos que são sem-sentido.
E estranhamos-lhes a aquilo que alguém as quis fazer significar, aquilo que acarretam para os outros, aquilo que nós lhes interpretamos.
E aquilo que elas fazem.

Hoje estranhei a palavra “palavra”.

1 comentário:

Unknown disse...

Estranhar é dar significado a algo. Hoje não estranhaste a palavra "palavra". Hoje deste-lhe significado e importância.