terça-feira, 1 de dezembro de 2009

periférico ao perigo.

Não chove, mas de cada vez que coloco a mão de fora da janela, ela regressa molhada. É como quem se embrulha num cobertor, e, de repente, dá por si no meio de um incêndio. Mas esses gostam de estar, simplesmente. Mais estáticos que um balão de ar friccionado, ou um ecrã de uma televisão antiga. Eu cá gosto de viver perigosamente.
Roo as unhas. Saco caricas de cerveja com os dentes. São multifuncionais. Mas também os trato bem. Certo dia olhava-me ao espelho, e abri boca e pestana, rendido à evidência de ter cada dente, daqueles, os da frente, muito serrados. Dentados, quero dizer, curiosamente, faço o pleonasmo. Então fui à caixa das ferramentas, e dedilhei procurando a apropriada. O serrote (pára de aparecer, sempre idêntica) pareceu-me excessivo. Também a grosa. Mas a lixa demasiado ligeira para a tarefa. Então, lá no fundo, descobri uma pequena lima, bem encardida, mas apta. Pensei lavá-la do óleo e serradura (não te consigo fugir), mas achei que não me mataria. Acertei a dentadura, pu-la mais certa que… bem, ficou certinha. Gosto de viver perigosamente.
Quando estaciono o carro, o meu renô alpine, azul com lista branca, à porta de casa ou em qualquer outro lugar com acentuado declive, gosto sempre de deixar a caixa engrenada no sentido da descida. E o travão-de-mão a meia alavanca. Dá-me um certo bem-estar. Gosto de viver perigosamente.
Sempre que vou a biblioteca, escolho dois livros. De um arranco uma folha aleatória. Do outro procuro uma página que contenha duas ou três palavras porcas, asneirentas ou pelo menos fortemente conotativas, e sublinho as que conseguir encontrar que, conjuntamente, formem um senso lexical e sintáctico eroticamente sugestivo. E escrevo o meu número de telefone. Vá, o da minha avó. Aliás, o meu único intuito em ir à biblioteca é fazer isso mesmo. Gosto de viver perigosamente.
Guardo os preservativos na caixa do kit de costura. Gosto de viver perigosamente.
Quando vejo uma miúda gira que não conheço, ao balcão, antes sequer de dizer olá, avanço para ela com duas bebidas na mão. Uma bebo de seguida. A outra, lanço para cima do namorado. Gosto de viver perigosamente.
Às vezes, quando estou bem-disposto, vou ao bairro dos traficantes de droga, procuro uma seringa no chão, e lanço-a ao ar, na vertical. Gosto de viver perigosamente.
Em vez de um croissant ao pequeno-almoço, gosto de jogar roleta russa. Sem balas. Não sou estúpido. Jogar com balas seria estúpido. Jogar sem elas, não. Gosto de viver perigosamente.

Sem comentários: