Onde está o meu jantar? Que prato é este, vazio? Porque é que o empregado, fina e elegantemente vestido, não tem cara e me apresenta uma carta que é não mais que uma folha em branco? O meu estômago ruge, sem alma.
Não como há 73 anos. Sou apenas osso coberto pela mais leve de camadas. Não tenho carne que chegue para que enrugue a minha idade na face. Conto os dias pelo crescer dos meus cabelos, peculiarmente fortes, crescendo como os de um saudável jovem. Estou algemado, bem no centro daquilo que aparenta ser o melhor restaurante, abaixo dos céus. Todos os dias, em três turnos, vejo os mais abastados serem servidos com as mais delicadas e sumptuosas criações gastronómicas imagináveis. Na sua deplorável gula, enfardam os vazios deixados pela anterior refeição. Bebem, gritam, cospem e engasgam-se de entusiasmo. Não me conseguem ver, estou demasiado no seu centro, no centro deles. Sou um risco na lente dos óculos.
Eu, que não me recordo sequer vagamente dos odores ou paladares da anterior refeição, já nem sei se a desejo. Já não sei se a vontade biológica morreu. Verdade é que eu estou vivo, ou pelo menos assim julgo, nos intervalos entre me tentar lembrar quem sou, porque aqui estou, o que fazia antes de aqui estar, e pensar se não será este um qualquer inferno. Lógica deixa de se preceder, e pede-me a admissão do meu perecer; mas não tenho forças para suportar a lógica.
Onde, onde está o meu cear? De que me serve o garfo? Tantas vezes o espetei no coração, apenas para ele se desfazer em mercúrio, como que por escárnio de mim. O gentil-homem que só a mim serve, cego, surdo e mudo, aproxima-se, de novo.
O diabólico menu volta para a minha escanzelada mão. Nele jazem unicamente as palavras: já chega?
Não como há 73 anos. Sou apenas osso coberto pela mais leve de camadas. Não tenho carne que chegue para que enrugue a minha idade na face. Conto os dias pelo crescer dos meus cabelos, peculiarmente fortes, crescendo como os de um saudável jovem. Estou algemado, bem no centro daquilo que aparenta ser o melhor restaurante, abaixo dos céus. Todos os dias, em três turnos, vejo os mais abastados serem servidos com as mais delicadas e sumptuosas criações gastronómicas imagináveis. Na sua deplorável gula, enfardam os vazios deixados pela anterior refeição. Bebem, gritam, cospem e engasgam-se de entusiasmo. Não me conseguem ver, estou demasiado no seu centro, no centro deles. Sou um risco na lente dos óculos.
Eu, que não me recordo sequer vagamente dos odores ou paladares da anterior refeição, já nem sei se a desejo. Já não sei se a vontade biológica morreu. Verdade é que eu estou vivo, ou pelo menos assim julgo, nos intervalos entre me tentar lembrar quem sou, porque aqui estou, o que fazia antes de aqui estar, e pensar se não será este um qualquer inferno. Lógica deixa de se preceder, e pede-me a admissão do meu perecer; mas não tenho forças para suportar a lógica.
Onde, onde está o meu cear? De que me serve o garfo? Tantas vezes o espetei no coração, apenas para ele se desfazer em mercúrio, como que por escárnio de mim. O gentil-homem que só a mim serve, cego, surdo e mudo, aproxima-se, de novo.
O diabólico menu volta para a minha escanzelada mão. Nele jazem unicamente as palavras: já chega?
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