quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

são 25 tostões, faz favor.

Hoje entrei num centro comercial fantasma. Deambulei, loja em loja, vazias, empoeiradas, esquecidas, frutos do tempo. Lembrei-me (apesar de disso não ter memória, visto ter sido a primeira vez que lá entrei) de todas as pessoas que lá trabalharam, todas as trocas lá efectuadas. Lembrei-me da senhora, já velhinha, que domesticava uma retrosaria de canto, entre passagens helicoidais, escadarias curvadas e estreitos corredores. Essa já faleceu. Lembrei-me do desconhecido, de bigode e chapéu, que comprava um brinquedo para a sua criança, por ocasião nenhuma em particular. A criança é hoje também um homem que compra brinquedos para as suas crianças. Em ocasião. Lembrei-me do casal absurdamente apaixonado que vagueava aquelas galerias, mas nunca nada trocou. Lá encontrou, num dia chuvoso, refúgio para trocar beijos delirantes.

Encontrei, na cave, onde persiste uma pequena florista, um café, como tantos que já existiram. Desembaciei o vidro do seu polvilho, e espreitei, como o faria um curioso pequeno, e admirei-me. Vi a Morte. Vi o tempo, impiedoso, e a marca que deixa. Tirei uma foto, com as minhas ópticas.

Como era aconchegado, aquele sítio. Era típico. No refrigerador transparente de balcão, restavam reminiscências de outros tempos. Meia dúzia ou talvez mais de cervejas, e refrigerantes vários. Nunca virão a ser tomados. Na parede pendia uma televisão que quase cabia no palmo da minha mão; ou, pelo menos, foi essa a minha ilusão. Era escuro, mas tinha brilho.

Quis, mais que tudo nesse momento, ter aquele espaço para mim. Nem sequer o quis mudar. Aceitei-o (coisa que me é rara). Quis apropriar-me, e voltar a dar vida. Brilharam, também esses, os meus olhos.

Quis convidar todos os meus amigos, para que estes fizessem o mesmo aos seus. Quis fazer petiscos, e servir cerveja barata e estupidamente gelada. Quis ter lá, depois das aulas, estudantes de faculdade ao som de guitarras acústicas e vozes rocas. Quis lá ter, depois do suor, operários fugidios às suas esposas. Quis ter lá, antes do deitar, o advogado do 2ºE da frente, para vir tomar o seu vil café de ceia. Quis cobrar em escudos, e saudar em estrangeiro.

Sonhei por um segundo, como o faz uma criança, que ingénua como é, compreende a nostalgia como nem nós.

2 comentários:

Anónimo disse...

partilha-se e recomenda-se.

Anónimo disse...

post simplesmente brilhante! podemos, felizmente, honrar-nos de não termos de ser nostálgicos a este respeito! um abraço!

o Amigo,
Rui Faria